Salmo 102 – Aflito, Mas Cheio de Confiança

O título deste salmo é Oração do aflito, quando ele está abatido e derrama sua queixa diante do SENHOR. Este aflito tomou emprestado seu tom e algumas de suas frases de Jó, que é o maior exemplo de aflição do Antigo Testamento. Muitas frases também correspondem a outras nos salmos.

Este salmo descreve Jerusalém (Sião) em estado de ruína. Se isso for tomado como ruína literal, o salmo pode ter sido escrito por aqueles no exílio que lamentavam tanto sua aflição pessoal quanto nacional. Adam Clarke seguiu esse pensamento e sugeriu que o autor poderia ser Daniel, Jeremias ou Neemias. No entanto, é possível que a ruína de Sião descrita seja mais de natureza poética e o salmo seja pré-exílico.

Na liturgia cristã tradicional, este tem sido considerado um dos sete salmos penitenciais (juntamente com os Salmos 6, 32, 38, 51, 130, 143).

A. Um clamor da crise.

1. (1-2) Um apelo pela presença de Deus.

Oração de um aflito que, quase desfalecido, derrama o seu lamento diante do Senhor. Não escondas de mim o teu rosto

a. Ouve a minha oração, ó SENHOR: De acordo com seu título, este salmo vem de um aflito anônimo. O salmista implora que Deus ouça sua oração, sabendo que se o Deus de bondade e compaixão ouvisse sua oração, Ele não ignoraria o apelo.

i. Os dois primeiros versículos deste salmo estão repletos de frases que aludem a outros salmos (VanGemeren cita sete dessas frases). “Mas o salmista não é um compilador de sangue frio, tecendo uma teia de fios velhos, mas um homem sofredor… obtendo certo consolo ao reiterar petições familiares.” (Maclaren)

b. Não escondas de mim o Teu rosto: A aflição em si já era ruim o suficiente, mas foi agravada além da medida pela sensação de que Deus não via ou não se importava. Quando ele tinha a sensação de que o favor e o rosto de Deus eram evidentes, a aflição podia ser suportada.

2. (3-7) A agonia de estar aflito na saúde.

Esvaem-se os meus dias como fumaça; Como a relva ressequida está o meu coração; De tanto gemer estou reduzido a pele e osso. Sou como a coruja do deserto, Não consigo dormir;

a. Porque os meus dias se consomem como fumaça: Em um estilo semelhante ao de Jó, o salmista descreveu sua agonia. Seus dias passavam como fumaça sem sentido. A dor de dentro de seu corpo fazia seus ossos parecerem estar queimando. Seu coração doía e ele não tinha apetite.

i. “Como fumaça; que passa na obscuridade, e rapidamente, e irrecuperavelmente.” (Poole)

ii. “Os efeitos da tristeza extrema sobre o corpo humano são comparados àqueles que o fogo produz sobre o combustível. Ele esgota a umidade radical e, ao fazê-lo, logo consome a substância.” (Horne)

iii. Me esqueço de comer o meu pão: “Acabe, ferido por um tipo de tristeza, Davi por outro, e Daniel por um terceiro, todos ‘esqueceram’ ou ‘recusaram comer seu pão’: 1 Reis 21:4, 2 Samuel 12:16; Daniel 10:3. Tais companheiros naturais são ‘luto e jejum’.” (Horne)

b. Os meus ossos se apegam à minha pele: Como em Jó 19:20, ele estava tão fraco e magro que parecia não haver nada entre seus ossos e sua pele. Ele se sentia como um pássaro solitário e inquieto (pelicano, coruja ou pardal).

i. “Pelicano; ou, abetouro, como a mesma palavra é traduzida, Isaías 34:11, Sofonias 2:14. É um pássaro solitário e triste, como também a coruja aqui mencionada.” (Poole)

ii. Pelicano, coruja: “O salmista se compara a dois pássaros que eram comumente usados como emblemas de melancolia e miséria.” (Spurgeon)

iii. Pardal: “Mas esta palavra hebraica não significa apenas um pardal, mas em geral qualquer pássaro, como Levítico 14:4, Deuteronômio 14:11, Daniel 4:12,14,21. E assim pode aqui designar qualquer tipo de pássaro que costumava sentar-se sozinho, vigiando e lamentando sobre os telhados das casas.” (Poole)

3. (8-11) A agonia de estar aflito por inimigos.

Os meus inimigos zombam de mim Cinzas são a minha comida, por causa da tua indignação e da tua ira, Meus dias são como sombras crescentes;

a. Os meus inimigos me afrontam todo o dia: A aflição do salmista vinha de mais do que saúde precária; ele tinha inimigos contra ele. Eles se opunham a ele com constante desaprovação e rejeição. Eles acrescentavam um tom de zombaria e maldição (que zombam de mim e juram contra mim).

i. “As zombarias e afrontas dos homens são geralmente adicionadas aos castigos de Deus; ou melhor, talvez sejam uma parte, e às vezes a parte mais amarga deles.” (Horne)

ii. Juram contra mim: “Juraram minha morte, ou juram e amaldiçoam por mim.” (Trapp)

b. Tenho comido cinza como pão: A vida do salmista parecia ser luto constante. As marcas do luto – cinza e lágrimas eram tão familiares para ele quanto comida e bebida.

c. Por causa da Tua indignação e da Tua ira: O luto era ainda mais amargo por causa da sensação de que esta aflição vinha como algum tipo de castigo de Deus.

i. Tu me levantaste e me arrojaste: “Ele sentiu que Deus estava tratando-o como os lutadores tratam uns aos outros, quando um homem deliberadamente levanta seu oponente para poder dar-lhe a pior queda.” (Spurgeon)

d. Eu me vou secando como a erva: Dominado por um senso de rejeição divina (Tu me levantaste e me arrojaste), ele sentiu que sua vida era curta e tinha pouco significado.

i. A sombra que declina: “Uma ‘sombra’ nunca permanece no mesmo lugar, mas está sempre deslizando imperceptivelmente, alongando-se à medida que avança, e por fim desvanecendo-se na escuridão.” (Horne)

ii. “Aqui, até o décimo segundo versículo, há um retrato muito vívido de uma pessoa abatida, tal como dificilmente pode ser igualado.” (Trapp)

B. Louvando o SENHOR que edifica Sião.

1. (12) Reconhecendo o Deus eterno.

Tu, porém, Senhor,

a. Mas Tu, ó SENHOR, permaneces para sempre: As linhas anteriores falavam da fragilidade do salmista e da natureza passageira da vida. A linha presente dá um contraste agudo e maravilhoso. O homem pode ter dias como sombras ou secar como a erva, mas o SENHOR permanece para sempre. O salmista pode, portanto, rejeitar toda autoconfiança e apegar-se a uma verdadeira confiança em Deus.

i. Notamos o contraste entre os primeiros 11 versículos, que estavam cheios de referências pessoais (eu, me e meu) e os versículos 12 e seguintes. Com as palavras, mas Tu, o foco muda e é colocado em Deus.

ii. “Esta, então, é a luz que afasta as trevas – o senso da eternidade de Deus. Então toda a vida é vista como estando sob Seu controle e, portanto, condicionada na sabedoria e intenção que incluem muito mais do que o momento passageiro, levando em conta todas as eras.” (Morgan)

b. E a Tua memória de geração em geração: Não apenas o Senhor mesmo perduraria, mas Sua influência e grandeza seriam declaradas de geração em geração, nunca passando.

2. (13-14) Reconhecendo o favor de Deus a Jerusalém.

Tu te levantarás e terás misericórdia de Sião, Pois as suas pedras são amadas

a. Tu Te levantarás e terás piedade de Sião: Embora em profunda aflição, o salmista tinha firme confiança de que Deus agiria e mostraria piedade a Jerusalém mais uma vez.

b. Sim, o tempo determinado já chegou: No tempo designado por Deus, Jerusalém seria objeto do favor de Deus. Ele tinha um tempo determinado para sua restauração e não os deixaria para sempre em ruína.

i. Se este salmo descreve o tempo no exílio, o tempo determinado aponta para os 70 anos estabelecidos por Deus para o cativeiro de Israel (Jeremias 25:11-13 e 29:10).

ii. “Havia um tempo designado para os judeus na Babilônia, e quando as semanas foram cumpridas, nem ferrolhos nem barras poderiam mais aprisionar os resgatados do Senhor.” (Spurgeon)

c. Os Teus servos têm prazer nas suas pedras: Está em nossa natureza rejeitar o que está quebrado ou destruído, mas os servos de Deus têm um amor que vai além da natureza humana. Eles veem a cidade em ruínas, têm prazer nas suas pedras e se compadecem do seu pó.

i. O salmista estava dominado por um senso de sua própria ruína e necessidade (Salmo 102:1-11). No entanto, ele não permitiu que isso o voltasse completamente para dentro; ele também se importava com sua comunidade.

ii. “Quando o povo de Deus deixa de pensar tanto em si mesmo e começa a pensar sobre o estado das coisas ao seu redor, particularmente nossas cidades e aqueles que estão sofrendo nelas, então Deus pode de fato ouvir nossas orações e enviar um avivamento.” (Boice)

iii. Se cada pedra da cidade de Deus era preciosa para Seus servos, então por analogia, também é cada pedra representando o povo de Deus em Seu grande edifício (1 Pedro 2:5). “O membro mais pobre da igreja, o desviado mais grave, o convertido mais ignorante, deve ser precioso aos nossos olhos, porque [eles formam]… uma parte, embora possivelmente uma parte muito fraca, da nova Jerusalém.” (Spurgeon)

3. (15-17) Reconhecendo a exaltação de Deus entre as nações.

Então as nações temerão o nome do Senhor, Porque o Senhor reconstruirá Sião Responderá à oração dos desamparados;

a. Então as nações temerão o nome do SENHOR: A restauração da misericórdia a Jerusalém é apenas a primeira parte de uma obra muito maior entre as nações. Deus Se revelaria de tal forma que todos os reis da terra honrariam Seu nome e glória.

b. Ele aparecerá na Sua glória: Os reis e reinos do mundo honram o SENHOR porque Ele Se revela em Sua obra para com Sião. Sua bênção e misericórdia para com Jerusalém são um prenúncio de Sua bondade para toda a terra, quando Ele atenderá à oração do desamparado.

i. “Um mundo maravilhado adorará seu Deus libertador.” (Maclaren)

ii. A oração do desamparado: “Apenas os mais pobres do povo foram deixados para suspirar e chorar entre as ruínas da amada cidade; quanto ao resto, eram estrangeiros em terra estranha, e longe do lugar santo, mas as orações dos cativos e da escória abandonada da terra seriam ouvidas pelo Senhor.” (Spurgeon)

4. (18-22) Reconhecendo a grande libertação que Deus traz.

Escreva-se isto para as futuras gerações, “Do seu santuário nas alturas o Senhor olhou; para ouvir os gemidos dos prisioneiros Assim o nome do Senhor quando os povos e os reinos

a. Isto se escreverá para a geração futura: A bondade de Deus para com Sião e toda a terra é um testemunho para o futuro, para que um povo que será criado louve ao SENHOR.

i. Isto se escreverá: “Esta maravilhosa libertação não será perdida nem esquecida, mas cuidadosamente registrada pelo Teu povo.” (Poole)

ii. “Registros da bondade divina devem ser feitos e preservados: escrevemos na história as calamidades das nações – guerras, fomes, pestilências e terremotos são registrados; quanto mais então devemos erguer memoriais das misericórdias do Senhor!” (Spurgeon)

iii. “Nada é mais tenaz do que a memória do homem quando ele sofre uma injúria; nada mais frouxo se um benefício é conferido. Por esta razão, Deus deseja, para que Seus dons não caiam no esquecimento, tê-los registrados por escrito.” (Le Blanc, citado em Spurgeon)

iv. A ideia de que Deus considera e planeja para aqueles que serão criados é uma revelação interessante. Não entramos primeiro na consciência de Deus quando somos concebidos no ventre de nossa mãe, mas quando somos concebidos em Seu coração e mente.

b. Porque olhou desde o alto do Seu santuário: O salmista imaginou Deus inclinando-se do céu:

· Para ver (contemplou a terra).

· Para ouvir (o gemido dos presos).

· Para agir (para soltar os sentenciados à morte).

· Para proclamar (o nome do SENHOR em Sião).

· Para reunir (quando os povos se congregarem).

· Para receber serviço (os povos se congregarem… para servir ao SENHOR).

i. Horne tomou estas palavras e as transformou em uma oração apropriada para o crente aflito hoje: “Olha para baixo, ó Senhor Jesus, mais uma vez sobre Teus servos, ainda sob o domínio da morte e a escravidão da corrupção; solta estas correntes, até mesmo estas também, ó Senhor, e traze-nos para a gloriosa liberdade de Teus filhos.”

C. A fraqueza do homem e a força de Deus.

1. (23) Uma confissão de fraqueza e sua causa.

No meio da minha vida

a. Ele abateu a minha força no caminho: O salmista começou este cântico reconhecendo sua própria fraqueza (Salmo 102:1-11). Então ele louvou a Deus por Sua libertação e vitória final (Salmo 102:12-22). Agora, na última seção deste salmo, ele confessou mais uma vez sua fraqueza e fragilidade (abreviou os meus dias).

b. Ele abateu… Ele abreviou: Além disso, o salmista reconheceu que foi Deus quem causou ou permitiu sua fraqueza e fragilidade. Aqui o salmista escreveu com um ponto muito semelhante ao do muito posterior apóstolo Paulo, que viu o plano de Deus e até mesmo glória em sua fraqueza presente (2 Coríntios 12:9-10).

2. (24-28) Uma oração do salmista aflito.

Então pedi: No princípio firmaste os fundamentos da terra, Eles perecerão, mas tu permanecerás; Mas tu permaneces o mesmo, Os filhos dos teus servos

a. Deus meu, não me leves: Dominado tanto por seu senso de grande fraqueza na aflição, quanto pela consciência da grandeza de Deus e vitória final, o salmista fez a coisa certa. Ele clamou em oração, suplicando pela ajuda misericordiosa de Deus.

b. Desde a antiguidade fundaste a terra: Salmo 102:25-27 é citado em Hebreus 1:10-12 como as palavras de Deus Pai para Deus Filho, o Messias.

i. No texto hebraico do Salmo 102:25-27, o salmista diz isso ao SENHOR, mas a ideia de que o próprio Deus fala estas palavras é mais clara na tradução grega do hebraico (a Septuaginta), que o autor de Hebreus citou.

ii. “A epístola abre nossos olhos para o que de outra forma seria revelado apenas pela Septuaginta dos versículos 23ss… a saber, que o Pai está aqui respondendo ao Filho, ‘por meio de quem todas as coisas foram feitas’.” (Kidner)

iii. “O escritor da Epístola não está afirmando que o salmista conscientemente falou do Messias, mas ele está declarando que suas palavras, lidas à luz da história, apontam para Jesus como a manifestação suprema do Deus redentor e, portanto, necessariamente do Deus criador.” (Maclaren)

iv. “Quando o salmista escreveu estas palavras, ele estava pensando em Deus Pai, como tem sido ao longo do salmo. Há muito pouca indicação da Trindade ou da pessoa do Filho de Deus no Antigo Testamento. Ainda assim, o autor de Hebreus está certo quando vê estas palavras como faladas pelo Pai a Jesus Cristo.” (Boice)

c. Eles perecerão, mas Tu permanecerás: O contraste era claro para o salmista. O Deus poderoso é eterno (por todas as gerações) e pode fazer todas as coisas (fundaste a terra). As coisas que Deus cria podem perecer, mas Ele mesmo permanecerá.

i. “Ele fez todas as coisas? Então Ele pode desfazê-las, e ser Ele mesmo sempre o mesmo.” (Meyer)

ii. “Não há nada mais calculado para fortalecer o coração no sofrimento, ou inspirar o espírito com coragem em dias de perigo e dificuldade, do que o senso da eternidade de Deus…. Coloquemos nossas limitações sempre à luz de Sua ilimitação.” (Morgan)

d. Tu os mudarás: Deus tem poder completo sobre a criação, incluindo o poder de mudar os céus como Lhe agrada. No entanto, Ele mesmo é imutável (Tu és o mesmo) e eterno (os Teus anos não terão fim).

i. “Em meio às mudanças e acasos desta vida mortal, um tópico de consolação sempre permanecerá, a saber, a eternidade e imutabilidade de Deus nosso Salvador, daquele que era, e é, e há de vir.” (Horne)

e. Os filhos dos Teus servos continuarão: O salmista terminou sua oração e este salmo com uma nota de confiança, até mesmo triunfo. Sua aflição parece ter permanecido, e ele não proclama esperança para seu problema presente. Ao mesmo tempo, ele está absolutamente confiante da bondade de Deus e vitória final para Seu povo (Teus servos). Se o salmista não viu isso em seus próprios dias, seus filhos certamente veriam, e a sua descendência será estabelecida pela bondade e força de Deus.

i. Esta é uma declaração notável de confiança na promessa de Deus de fazer todas as coisas certas e boas, se não no presente, então nos dias vindouros. Mostra uma progressão maravilhosa neste salmo.

· Ele começou com uma declaração honesta de sua própria miséria.

· Então ele olhou para fora de si mesmo para sua comunidade.

· Então ele olhou para fora de sua comunidade para o mundo.

· Então ele olhou para fora de seu tempo para gerações futuras.

ii. “É notável que o salmista não tire a conclusão de que ele mesmo receberá uma resposta à sua oração, mas que ‘os filhos dos Teus servos habitarão’ isto é, na terra, e que sempre haverá um Israel ‘estabelecido diante de Ti’.” (Maclaren)

iii. “Qualquer que seja o destino da geração presente, se eles podem viver para ver o cumprimento de tudo o que foi predito ou não, ainda assim a palavra de Deus permanece firme; sempre haverá uma igreja, e uma semente santa, a quem as promessas serão cumpridas.” (Horne)

©1996–presente O Comentário Bíblico Enduring Word por David Guzik –