Salmo 122 – Vindo à Casa do SENHOR e à Cidade de Deus
O Salmo 122 traz o título Cântico de Romagem. De Davi. É um dos quatro Cânticos de Romagem especificamente atribuídos ao rei Davi. Ele o escreveu tanto pelo que Jerusalém era em seus dias quanto pelo que ela se tornaria sob seu filho e seus sucessores. Davi talvez nunca tenha feito peregrinação de grande distância para uma das grandes festas, mas escreveu o Salmo 122 na voz de alguém que o fez e que havia chegado à Cidade Santa.
“Davi o escreveu para o povo cantar no tempo de suas subidas às festas sagradas em Jerusalém. Ele vem em terceiro lugar na série e parece ser adequado para ser cantado quando o povo entrava pelas portas e seus pés estavam dentro da cidade.” (Charles Spurgeon)
A. Vindo a Jerusalém.
1. (1) A alegria de vir à casa de Deus.
Cântico de Peregrinação. Davídico.
a. Alegrei-me quando me disseram: Davi tinha em mente tanto a comunidade (quando me disseram) quanto o indivíduo (Alegrei-me). Ele imaginou o indivíduo se reunindo com o grupo para ir à casa do SENHOR. Esse convite e sua aceitação o deixaram alegre.
i. Boice refletiu sobre o possível motivo de Davi ao escrever o Salmo 122: “É razoável supor que ele o escreveu tanto para expressar alegria em sua nova capital quanto para encorajar amor e lealdade para com ela como ponto focal da vida política e adoração da nação.”
b. Vamos à casa do SENHOR: Durante os dias de Davi nunca houve um templo, mas ele sabia que um seria construído, tendo planejado e preparado extensivamente para isso (1 Crônicas 22:2-16). É possível que Davi tenha escrito aqui sobre a peregrinação ao tabernáculo, que existia em seus dias e era considerado a casa do SENHOR. É mais provável que Davi tenha escrito este salmo em antecipação aos peregrinos que viriam à casa do SENHOR construída por Salomão.
i. É maravilhoso pensar na extensa preparação de Davi para que o povo de Israel viesse ao templo, especialmente para as festas obrigatórias três vezes ao ano.
ii. “Aquela Casa era suprema em importância porque era a Casa de Jeová. Jeová, o Deus da Graça, é Aquele ao redor de Quem o povo se reúne.” (Morgan)
c. Vamos à casa do SENHOR: Vir à casa de Deus deixava Davi feliz, embora ele soubesse que nenhum edifício poderia conter Deus em toda a Sua glória e grandeza. Na casa do SENHOR ele podia focar seus pensamentos, orações, adoração e recepção da palavra de Deus na comunidade do povo de Deus de uma maneira especial, e Davi estava alegre por isso.
i. Muitos não conhecem a alegria que Davi cantou, seja porque não vão à casa do SENHOR, ou porque vão e não é algo alegre para eles.
ii. Devemos ir à casa do SENHOR. É bom e importante para nós nos reunirmos com o povo de Deus para orações, adoração e recepção da palavra de Deus. A reunião deve ser formal e ordenada o suficiente para que seja considerada uma reunião da casa de Deus – não todos fazendo suas próprias coisas, mas o povo de Deus se reunindo para Sua glória e seu benefício em Sua casa.
iii. Nossa ida à casa de Deus deve ser algo alegre. Isso não é o mesmo que dizer que deve ser entretenimento, especialmente numa era em que o entretenimento é um ídolo perigoso. Nem tudo que acontece na casa do SENHOR precisa ser divertido, mas tudo deve ser bom, tanto acolhedor para o não-crente quanto bom para aqueles que são crentes em Jesus.
iv. Se ir à casa do SENHOR não é algo alegre, o problema pode estar no coração de quem vem ou pode estar no que acontece na casa do SENHOR – mas o problema deve ser diagnosticado com oração e abordado com amor.
2. (2) A chegada feliz.
Nossos pés já se encontram
a. Nossos pés estiveram dentro das tuas portas: A maioria considera isso como a descrição de Davi da declaração alegre do peregrino que finalmente chegou. O aspecto mais importante é a evidente alegria e contentamento ao chegar ao destino.
i. “Este é o cântico do cantor, não mais distante da Cidade e do Templo, mas tendo chegado ali. É o cântico das primeiras impressões.” (Morgan)
b. Dentro das tuas portas, ó Jerusalém: Eles vieram a Jerusalém porque era lá que Davi estabeleceu o tabernáculo e onde estavam a arca da aliança e o altar de sacrifício. Mais tarde, Salomão construiu o templo em Jerusalém que Davi planejou e preparou.
B. Descrevendo Jerusalém.
1. (3-4) Uma cidade próspera e unificada.
Jerusalém está construída Para lá sobem as tribos do Senhor,
a. Jerusalém está edificada: Davi havia conquistado a cidade de Jerusalém, tomando-a dos jebuseus que a mantinham como fortaleza cananeia. Ele edificou a cidade em seus próprios dias, e Davi se alegrou em declarar: Jerusalém está edificada.
i. “Não importa quão perverso ou degradado um lugar tenha sido em tempos passados, quando é santificado para o uso e serviço de Deus, torna-se honroso. Jerusalém era anteriormente Jebus – um lugar onde os jebuseus cometiam suas abominações e onde estavam todas as misérias daqueles que se apressam atrás de outro Deus. Mas agora, desde que é dedicada ao serviço de Deus, é uma cidade – ‘bem compacta’, ‘a alegria de toda a terra’.” (Plumer, citado em Spurgeon)
b. Como cidade bem compacta: A cidade de Davi em Jerusalém não era grande, mas não era uma coleção desordenada de tendas e barracos. Ela estava edificada, e edificada junta de maneira ordenada (bem compacta). Era uma cidade de verdade.
i. “Durante o reinado de Davi e por algum tempo depois, Jerusalém era uma cidade pequena localizada no cume do Monte Sião e do Monte Moriá, limitada em dois lados por descidas íngremes aos vales de Cedrom e Tiropeão, e assim não mais que meia milha de largura. Tinha um cenário dramático para quem se aproximava de longe, e sua estrutura compacta teria impressionado qualquer um que a observasse.” (Boice)
ii. “Além disso, não é erguida como um conjunto de cabanas, ou uma conglomeração de casebres, mas como uma cidade, substancial, arquitetônica, projetada, organizada e defendida.” (Spurgeon)
iii. “A expressão ‘firmemente unida‘ [bem compacta] usa… o mesmo verbo encontrado nas instruções para fazer a tenda de adoração: ‘une a tenda para que seja um todo’ (Êxodo 26:11). Tal era o projeto; tal será a realidade final (Apocalipse 21:10ss.).” (Kidner)
iv. “Uma igreja deve ser uma em credo e uma em coração, uma em testemunho e uma em serviço, uma em aspiração e uma em sentimentalismo. Aqueles que quebram a paz da igreja merecem sofrer, e aqueles que a sustentam ganham uma grande bênção.” (Spurgeon)
c. Para onde sobem as tribos: Uma das razões pelas quais Davi conquistou Jerusalém e a estabeleceu como capital da vida política e religiosa de Israel foi porque ela não pertencia anteriormente a uma tribo específica, estando sob ocupação cananeia. Como não pertencia a nenhuma tribo, pertencia a todas as tribos, e as tribos do SENHOR podiam se reunir como uma só em Jerusalém e na casa do SENHOR.
i. “Note que Israel era um povo, mas ainda assim estava em certo sentido dividido pela mera distinção superficial de tribos; e isso pode ser uma lição para nós de que toda a cristandade é essencialmente uma, embora por várias causas estejamos divididos em tribos. Deixemos tanto quanto possível afundar a individualidade tribal na unidade nacional, para que a igreja possa ser muitas ondas, mas um mar; muitos ramos, mas uma árvore; muitos membros, mas um corpo.” (Spurgeon)
ii. Os cristãos hoje devem refletir essa mesma unidade mesmo com sua diversidade. “Não há tal unidade em todo o mundo como entre verdadeiros cristãos; e isso os próprios pagãos observaram e elogiaram. Como as cortinas do tabernáculo eram unidas por laços, assim eram eles pelo amor. E como as pedras do templo eram tão estreitamente cimentadas juntas que pareciam ser todas uma só pedra, assim era entre os santos primitivos.” (Trapp)
iii. “Onde quer que meus irmãos se encontrem, em qualquer seção da Igreja na terra, contanto que pertençam à única Igreja, o Corpo de Cristo, nada me impedirá de desejar-lhes prosperidade e paz. Eles podem não me reconhecer aqui, mas cinco minutos no Céu acabarão com todos esses distanciamentos terrenos.” (Meyer)
d. Ao Testemunho de Israel: Isso descreve a arca da aliança, que era frequentemente chamada por este título (Êxodo 25:22, Êxodo 27:21, Números 1:53). Representando o trono de Deus e Sua presença em Israel, o Testemunho de Israel era o centro do tabernáculo e depois do templo.
i. Matthew Poole explicou por que a arca da aliança às vezes era chamada o Testemunho de Israel: “…as tábuas da aliança [foram] depositadas nela, que são chamadas testemunho de Deus, e as tábuas do testemunho.”
ii. Muitos comentaristas (como Adam Clarke) consideram este salmo como escrito por e para exilados retornando do cativeiro babilônico. A referência à arca do Testemunho argumenta contra essa ideia, porque ela não fazia parte do templo quando os exilados retornaram.
e. Para dar graças ao nome do SENHOR: O propósito principal das festas de Israel era para o povo de Deus se reunir e dar-Lhe graças. Sua apreciação pelo que Ele havia feito lhes dava fé para o que Ele faria no futuro.
i. “Note que o objetivo dessas festas de peregrinos era dar graças, não primariamente buscar unidade ou prosperidade. Estes eram presentes além da ocasião, não sua razão de ser; enquanto a adoração pagã era muito flagrantemente um meio de garantir o que se queria: cf. Oséias 2:5.” (Kidner)
ii. “A unidade da cidade refletia a unidade das tribos nessas ocasiões especiais. As tribos israelitas se reuniam com o propósito de louvar ‘o nome do Senhor’. Era um ato de lealdade, como o Senhor lhes havia ordenado a se apresentarem diante dele.” (VanGemeren)
2. (5) Uma cidade de justiça e governo justo.
Lá estão os tribunais de justiça,
a. Pois ali estão estabelecidos os tronos de julgamento: Como sede do governo de Israel, Jerusalém era onde seus principais tribunais de julgamento eram estabelecidos. Jerusalém deveria ser uma cidade de justiça, onde o bem era honrado e onde o mal era corrigido.
i. Esses tronos eram para dispensar julgamento, e podem ter sido visíveis nas portas da cidade (Rute 4:1-12, Mateus 19:28).
b. Os tronos da casa de Davi: A casa de Davi foi estabelecida para reinar sobre Israel. A casa de Saul nunca reinou, fornecendo realmente apenas um rei. A linhagem de Davi reinou em Jerusalém e reinará para sempre no Messias, o Filho de Davi.
C. Orando por Jerusalém.
1. (6-8) A exortação para orar e a própria oração.
Orem pela paz de Jerusalém: Haja paz dentro dos teus muros Em favor de meus irmãos e amigos, direi:
a. Orem pela paz de Jerusalém: Davi exortou os peregrinos que vinham à Cidade Santa a orar pela paz da cidade. O próprio nome de Jerusalém a marca como a cidade da paz (Hebreus 7:2), mas na realidade ela conheceu muita guerra e conflito, que continuam até hoje. É bom orar pela frequentemente elusiva paz de Jerusalém.
i. “Numa igreja, um dos principais ingredientes do sucesso é a paz interna: contenda, suspeita, espírito partidário, divisão – estas são coisas mortais. Aqueles que quebram a paz da igreja merecem sofrer, e aqueles que a sustentam ganham uma grande bênção.” (Spurgeon)
b. Prosperem aqueles que te amam: Davi continuou dando uma oração por Jerusalém. A oração incluía uma bênção para aqueles que amam a cidade, e um pedido direto por paz e prosperidade para a cidade.
i. Kidner sobre paz e prosperidade: “São os frutos apropriados da justiça, o assunto do versículo 5.”
ii. “A palavra ‘prosperar’ transmite uma ideia que não está no original. A palavra hebraica significa estar seguro, tranquilo, em descanso, falado especialmente de alguém que desfruta de prosperidade tranquila: Jó 3:26; 12:6. A ideia essencial é a de quietude ou descanso; e o significado aqui é que aqueles que amam Sião terão paz.” (Barnes, citado em Spurgeon)
iii. “Esta é a forma de oração que eles devem usar: ‘Que a prosperidade sempre resida dentro dos teus muros, sobre todo o povo que ali habita; e tranquilidade dentro dos teus palácios ou lugares altos, entre os governantes e governadores do povo.'” (Clarke)
c. Por causa dos meus irmãos e companheiros: Davi orou por bênçãos para aqueles que amavam e oravam por Jerusalém, mas a bênção não era apenas para o indivíduo, mas para a comunidade daqueles que se importavam com a paz de Jerusalém, aqueles que disseram: “Paz esteja dentro de ti.”
i. Um “jogo de palavras está na troca de ‘paz’ e ‘prosperidade’, que são muito semelhantes em som no hebraico.” (Maclaren)
ii. “A repetição do desejo mostra a alta valorização do escritor pela bênção mencionada; ele não teria invocado paz repetidamente se não tivesse percebido sua extrema desejabilidade.” (Spurgeon)
2. (9) A razão para orar e buscar o bem para Jerusalém.
Em favor da casa do Senhor, nosso Deus,
a. Por causa da casa do SENHOR nosso Deus: Davi entendeu que a alegria e bondade do peregrino para com a cidade de Deus não era primariamente de natureza política. Não era por causa de lealdade a um partido político, líder ou filosofia. Era porque a casa do SENHOR estava estabelecida ali.
i. “O Salmista declara os dois motivos que o induziram a expressar seus melhores desejos e usar seus melhores esforços pela prosperidade de Jerusalém; a saber, amor por seus irmãos, cuja felicidade estava envolvida na de sua cidade; e amor por Deus, que ali havia fixado a residência de sua glória.” (Horne)
ii. “Através de tudo isso é evidente que a glória da cidade e do Templo consiste no fato de que são a cidade e casa de Jeová. Não é um cântico de edifícios ou de magnificência material. É antes o cântico de assembleia, de testemunho, de julgamento, de paz, de prosperidade. Todos estes surgem do fato supremo da presença de Jeová.” (Morgan)
iii. Isso tem uma aplicação especial para o cristão sob a Nova Aliança. Para nós, a igreja é a casa do SENHOR, com Jesus a Cabeça e Filho da casa (Hebreus 3:5-6, Hebreus 10:21, 1 Pedro 2:5, 1 Pedro 4:17). O que torna a igreja especial é que ela é a habitação de Deus, Sua casa. Sua presença a torna especial.
iv. A antiga Jerusalém tinha importância política, econômica e social. No entanto, a razão mais importante para amar e cuidar de Jerusalém era por causa da casa do SENHOR. Os cristãos devem ter o mesmo grande cuidado e foco na obra da casa de Deus.
b. Buscarei o teu bem: Assim como era bom para os peregrinos em Israel buscar o bem de Jerusalém por causa da casa de Deus, assim os cristãos hoje podem e devem buscar o bem da sociedade por causa da casa de Deus.
i. Buscarei: “Não é uma busca descuidada e solta, quase tão indiferentemente quanto uma mulher procura um alfinete que deixou cair; não, não; esforço está implícito.” (Irons, citado em Spurgeon)
ii. “Primeiro nós a amamos (Salmo 122:6) e então trabalhamos por ela, como nesta passagem: vemos seu bem e então buscamos seu bem.” (Spurgeon)
©1996–presente O Comentário Bíblico Enduring Word por David Guzik –
